ENTREVISTA DE LUÍS VILAR AO DIÁRIO AS BEIRAS

O que ganha com o adiamento do início do seu julgamento?
O que levou ao adiamento não é culpa minha. O meu advogado, ainda em fase de instrução, pediu uma peritagem financeira e económica a todas as minhas contas, uma vez que os valores de que estava acusado, e que alguns jornais trouxeram a público, enfermavam de erros, alguns bem grosseiros. Aliás, eu próprio mandei fazer uma peritagem, a um especialista da nossa praça, que não deixa dúvidas. Mas a juíza de instrução criminal, a dra. Fernanda, julgo que já não é Roberto, entendeu que a peritagem não era precisa, tal como o Ministério Público já assim tinha entendido, para deduzir acusação. Agora, o juiz do processo achou que sim, que era imprescindível.

Por que não tornou públicos os resultados da sua peritagem?
Porque estávamos em fase de segredo de justiça. Mas, agora, que já foi levantado, quero lembrar que há de facto uma verba sobre a qual decorre uma acção cível, minha, contra a TCN – Trancrone. Mas isso foi porque eles não me pagaram. Conforme o contrato que consta dos autos, eu tinha de receber à volta de 700 mil euros. E, também conforme valores que constam dos autos, só recebi 77 mil. Por isso, meti a acção e o julgamento está marcado para 22 de Outubro.

O que fazia na TCN?
Era consultor, em várias áreas de negócio e em praticamente todo o país.

Como aconteceu o negócio do prédio dos Correios?
Eu já trabalhava com eles e, a certa altura, o empresário Carlos Godinho telefonou–me a dizer que tinha um negócio em vista, mas que não tinha capital suficiente. Perguntou–me se conhecia alguém que pudesse entrar no negócio. Eu disse que talvez tivesse e, assim, realizámos um jantar no restaurante A Meta, na Mealhada…

Quem esteve nesse jantar?
Eu, o Carlos Godinho e os dois responsáveis da Trancrone, Júlio Macedo e Pedro Garcez.

Que instituições públicas convenceu a instalarem-se nos antigos Correios?
Públicas, rigorosamente nenhuma. Nem Ministério da Justiça, nem câmara, nenhuma. Algumas privadas, sim. Aliás, são minhas testemunhas no processo cível contra a Trancrone. É o caso do Lino Vinhal, do União de Coimbra e da Clinicentro.

Mas, enquanto vereador da câmara, votou a ida da Associação de Informática da região Centro (AIRC)?
Vamos lá a ver. Desde o tempo do eng. Moreira que a AIRC funcionava em moldes que eu nunca concordei, em que a Câmara de Coimbra financiava as instalações. Com a construção do novo estádio, havia que transferir a AIRC, tal como algumas colectividades e a própria Divisão de Desporto municipal. Logo nessa altura foi proposta, já não me recordo se pelo presidente da câmara ou se pelo vereador Nuno Freitas, que tinha o pelouro do Desporto, a transferência para o edifício dos CTT. Isso foi à reunião do executivo, que votou por unanimidade, em Outubro/Novembro 2002…

Antes ou depois daquele almoço, na Mealhada?
Dois ou três meses antes. Mas, enfim, na altura, ninguém falava, ou pelo menos eu nada sabia, de qualquer hipótese de venda do edifício.

Houve aumento da renda, depois do negócio?
Vejamos, a proposta para que a AIRC se mantivesse nos antigos Correios até ter sede nova só foi votada um ano depois. Se demorou tanto a tempo a decidir a localização da nova sede e se nem uma pedra ainda está no terreno, isso é um problema do dr. Carlos Encarnação e da maioria. Curiosamente, a renda que a câmara pagava, inicialmente, aos Correios é exactamente a mesma que ficou a pagar depois. Ou seja, a venda do edifício da Fernão de Magalhães não interferiu em nada e, se a câmara se diz enganada, então foi pela própria administração dos Correios.

Trabalhou com Marcelo Nuno, na TCN?
Sobre Marcelo Nuno já disse o que tinha a dizer, até porque não gosto de falar muito dos outros. Na Trancrone, a partir de certa altura, percebi que também lá trabalhava, pois cruzava-me com ele, em Lisboa, onde tinha um gabinete, aliás como eu também tinha, embora nunca me lá tivesse sentado. Agora, em que condições ele trabalhava, não sei nem nunca quis saber. Faço mesmo disso questão de honra.

Como conheceu Domingos Névoa?
Eu conheci o Domingos Névoa, era eu já vereador, em 99 ou 2000, estava ele sentado no Café Santa Cruz com o dr. Vespasiano, ex-estudante de Coimbra, que me chamou e mo apresentou. A Bragaparques e a obra no Bota Abaixo só vieram depois.

Por que não se optou por uma parceria público-privado?
Quem defendia isso, na câmara, era o Gouveia Monteiro. E eu insurgi-me várias vezes, perguntando como é que podia rentabilizar isso, quando, ainda por cima, uma câmara, como a de Almada, presidida por uma militante do PCP, tem, mesmo em frente aos Paços do Município, um grande parque de estacionamento, só da Bragaparques, ainda por cima com um Pão de Açúcar…

Ficou surpreendido com a sentença que condenou Domingos Névoa, em Lisboa?
Se não o conhecesse, ou quisesse tratá-lo com menor respeito, eu diria que, falando em abstracto, o crime compensa. É que, lendo os jornais, ele terá querido corromper por 200 mil euros e acaba condenado a pagar cinco mil euros…. Que mais é preciso dizer sobre o Estado de Direito?

Como classifica Emídio Mendes?
Eu diria que é verdadeiramente um investidor. Eu conheci-o há anos, quando ainda estava no sindicato, quando ele e o irmão construíram um prédio na Av. Elísio de Moura. Depois, ele diversificou os investimentos. Sei que tem hotéis e, mais tarde, vi-o metido no futebol…

Mas, é como construtor que ele fica ligado ao episódio dos Jardins do Mondego…
Se me vai falar do caso do oitavo andar, respondo-lhe já, sem hesitação: em Portugal, quase todos os PDM são violados. Agora, num caso destes, em que a empresa tem a dimensão que tem, em que, por regra, os advogados são mais do que os engenheiros, ainda por cima ligada à Fundimo, da Caixa, o oitavo andar só se entende se alguém, com poderes bastantes, deu esperanças.

Mas o senhor votou a favor dos embargos…
Votei, mas há que dizer que o único embargo verdadeiro, sério, é o primeiro, do eng. João Rebelo, em Março, apenas ao oitavo andar. Aliás, o despacho dizia que o processo, que estava metido na câmara, para poder ser feito esse tal oitavo andar, ainda não estava aprovado. A própria dra. Fernanda Maçãs disse-me que, se as contrapartidas forem consideradas de utilidade pública, podia perfeitamente autorizar–se o oitavo e até mais andares. Bem diferente foi quando o dr. Encarnação veio, passado uns meses, “por cima” do eng. Rebelo, decretar o embargo total, o que me pareceu sempre uma idiotice total e só se pode explicar pela pressão eleitoral. E não me venham com excesso de índice porque nós, na câmara, já votámos bem pior, incluindo mais 100 por cento para a Fundação Bissaya Barreto.

Ao contrário de Névoa, que surge no seu processo como tendo emprestado dinheiro, Emídio Mendes é citado por um donativo…
Sim, feito ao Partido Socialista, de forma transparente e com o devido recibo…

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